Em 2016, o escritor e repórter de
guerra francês Philippe Lobjois chega à cidade de Alepo, capital da Síria. O
cenário encontrado foi de completa destruição e ruínas; da rica e imensa
cidade, restou apenas uma aglomeração de pessoas na região oeste que lutaram todos
os dias para não chegar ao mesmo destino que as outras 400 mil pessoas
assassinadas pela Guerra na Síria. Através da organização francesa SOS Cristãos
do Oriente, Philippe encontra Myriam e sua família e tem o seu primeiro contato
com o precioso diário.
Myriam começou a escrever seu diário
quase que junto com o início das manifestações contra o presidente Bashar
al-Assad em 2011, aos
seis anos de idade. Depois disso, a situação cresceu progressivamente até matar
milhares de pessoas e refugiar outras milhões. A guerra já é algo desolador o
suficiente, mas quando vista com os olhos de uma criança se torna ainda mais difícil
de digerir. Pessoalmente, diria até mesmo impossível. A sensibilidade do
repórter em divulgar tais relatos junto com a sua autora é imensurável, sem
dúvida se trata de uma obra tão necessária quanto o renomado Diário de Anne
Frank.
Foi, também, muito sensível a maneira
com que o livro veio a ser publicado aqui no Brasil. Stéphanie Habrich,
fundadora do primeiro jornal infanto-juvenil do Brasil – “Joca”, de São Paulo –,
publicou uma notícia a respeito do lançamento na França do diário da menina
síria. A notícia gerou uma mobilização entre crianças que organizaram diversas
atividades com finalidade de disseminar informação, ajudar refugiados
necessitados, conscientizar sobre os mais variados temas. Por fim, o jornal
recebeu diversas cartas e abaixo assinados para traduzir e trazer o diário para
o Brasil, ato que levou a tão esperada publicação pela editora DarkSide Books,
em 2018.
Achei importante destacar todo esse
processo de chegada do livro ao nosso país, pois não há maior exemplo do
impacto dessa história do que tal movimentação. Foi pela mão de crianças que se
colocaram no lugar da Myriam. O carinho certamente ultrapassou fronteiras, pois
a própria autora do livro passou a nutriu um apreço especial pelo Brasil depois
de todo o ocorrido. Pesquisando sobre como estaria Myriam Rawick hoje,
encontrei um vídeo dela que foi passado nas escolas que pediram pelo livro,
mandando seus agradecimentos e até mesmo arriscando palavras em português.
O diário contém seu primeiro relato
no dia 12 de junho de 2011, e o último – dos que são apresentados na edição, já
que Myriam diz ter continuado a escrever seu diário mesmo após os ataques em
Alepo terem cessado – em março de 2017. Com a tradução de Maria Clara Carneiro,
acompanhar o amadurecimento forçado e precoce de uma criança gera uma comoção
no leitor. A alegria das feiras nas ruas de Alepo, as comidas típicas de sua
nação, a alegria de frequentar a escola se transformando aos poucos em medo, o
estranhamento do terror que não faz o menor sentido em seus olhos, o desespero
de seus pais para proteger a ela e sua irmã mais nova, as pequenas alegrias em
meio a uma rotina caótica... Cada página traz experiências impensáveis a alguém
tão jovem.
Ao contrário de Anne Frank, Myriam
não deu espaço para devaneios ou longas descrições do que é sentido. É um
relato duro que dói ainda mais quando se recorda que foi feito por uma criança,
tudo é narrado de uma forma muito crua. Direta. Real demais. Myriam não nos
poupa dos detalhes, mas também não os estende excessivamente; sua narrativa é
simplesmente pontual, mas sem nunca perder o filtro da inocência da infância.
Nas páginas finais do livro, Yan
Boechat traz em suas fotografias uma paisagem de escombros e apenas a sombra de
uma cidade que um dia existiu ali. A editora não errou na montagem do livro,
cumprindo fielmente com sua fama de produzir verdadeiras obras de arte e quem
disse para não julgar um livro pela capa certamente não conhecia a DarkSide. A
edição foge um pouco da costumeira capa dura, permitindo um preço mais
acessível a uma obra que deve sim ser acessada, mas não decepciona em qualidade
e estética.
Um livro a se adquirir que vale a
pena desde o seu conteúdo até sua capa, uma experiência valiosa de empatia e
sensibilidade. “O Diário de Myriam” é, sem sombra de dúvidas, uma obra que
humaniza as vidas transformadas em mera estatística de noticiários e nos intima
a refletir sobre os horrores da guerra.
O Diário de Myriam - Site oficial
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