quinta-feira, 2 de julho de 2020

Angustiante, porém necessário - Resenha: O Diário de Myriam (escrito por Myram Rawick com Philippe Lobjois)

Resenha: O Diário de Myriam, de Myram Rawick com Philippe Lobjois

Em 2016, o escritor e repórter de guerra francês Philippe Lobjois chega à cidade de Alepo, capital da Síria. O cenário encontrado foi de completa destruição e ruínas; da rica e imensa cidade, restou apenas uma aglomeração de pessoas na região oeste que lutaram todos os dias para não chegar ao mesmo destino que as outras 400 mil pessoas assassinadas pela Guerra na Síria. Através da organização francesa SOS Cristãos do Oriente, Philippe encontra Myriam e sua família e tem o seu primeiro contato com o precioso diário.

Myriam começou a escrever seu diário quase que junto com o início das manifestações contra o presidente Bashar al-Assad em 2011, aos seis anos de idade. Depois disso, a situação cresceu progressivamente até matar milhares de pessoas e refugiar outras milhões. A guerra já é algo desolador o suficiente, mas quando vista com os olhos de uma criança se torna ainda mais difícil de digerir. Pessoalmente, diria até mesmo impossível. A sensibilidade do repórter em divulgar tais relatos junto com a sua autora é imensurável, sem dúvida se trata de uma obra tão necessária quanto o renomado Diário de Anne Frank.

Foi, também, muito sensível a maneira com que o livro veio a ser publicado aqui no Brasil. Stéphanie Habrich, fundadora do primeiro jornal infanto-juvenil do Brasil – “Joca”, de São Paulo –, publicou uma notícia a respeito do lançamento na França do diário da menina síria. A notícia gerou uma mobilização entre crianças que organizaram diversas atividades com finalidade de disseminar informação, ajudar refugiados necessitados, conscientizar sobre os mais variados temas. Por fim, o jornal recebeu diversas cartas e abaixo assinados para traduzir e trazer o diário para o Brasil, ato que levou a tão esperada publicação pela editora DarkSide Books, em 2018.

Achei importante destacar todo esse processo de chegada do livro ao nosso país, pois não há maior exemplo do impacto dessa história do que tal movimentação. Foi pela mão de crianças que se colocaram no lugar da Myriam. O carinho certamente ultrapassou fronteiras, pois a própria autora do livro passou a nutriu um apreço especial pelo Brasil depois de todo o ocorrido. Pesquisando sobre como estaria Myriam Rawick hoje, encontrei um vídeo dela que foi passado nas escolas que pediram pelo livro, mandando seus agradecimentos e até mesmo arriscando palavras em português.

O diário contém seu primeiro relato no dia 12 de junho de 2011, e o último – dos que são apresentados na edição, já que Myriam diz ter continuado a escrever seu diário mesmo após os ataques em Alepo terem cessado – em março de 2017. Com a tradução de Maria Clara Carneiro, acompanhar o amadurecimento forçado e precoce de uma criança gera uma comoção no leitor. A alegria das feiras nas ruas de Alepo, as comidas típicas de sua nação, a alegria de frequentar a escola se transformando aos poucos em medo, o estranhamento do terror que não faz o menor sentido em seus olhos, o desespero de seus pais para proteger a ela e sua irmã mais nova, as pequenas alegrias em meio a uma rotina caótica... Cada página traz experiências impensáveis a alguém tão jovem.

Ao contrário de Anne Frank, Myriam não deu espaço para devaneios ou longas descrições do que é sentido. É um relato duro que dói ainda mais quando se recorda que foi feito por uma criança, tudo é narrado de uma forma muito crua. Direta. Real demais. Myriam não nos poupa dos detalhes, mas também não os estende excessivamente; sua narrativa é simplesmente pontual, mas sem nunca perder o filtro da inocência da infância.

Nas páginas finais do livro, Yan Boechat traz em suas fotografias uma paisagem de escombros e apenas a sombra de uma cidade que um dia existiu ali. A editora não errou na montagem do livro, cumprindo fielmente com sua fama de produzir verdadeiras obras de arte e quem disse para não julgar um livro pela capa certamente não conhecia a DarkSide. A edição foge um pouco da costumeira capa dura, permitindo um preço mais acessível a uma obra que deve sim ser acessada, mas não decepciona em qualidade e estética.

Um livro a se adquirir que vale a pena desde o seu conteúdo até sua capa, uma experiência valiosa de empatia e sensibilidade. “O Diário de Myriam” é, sem sombra de dúvidas, uma obra que humaniza as vidas transformadas em mera estatística de noticiários e nos intima a refletir sobre os horrores da guerra.


O Diário de Myriam - Site oficial

Adquira o livro na DarkSide Books




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