quinta-feira, 2 de julho de 2020

Angustiante, porém necessário - Resenha: O Diário de Myriam (escrito por Myram Rawick com Philippe Lobjois)

Resenha: O Diário de Myriam, de Myram Rawick com Philippe Lobjois

Em 2016, o escritor e repórter de guerra francês Philippe Lobjois chega à cidade de Alepo, capital da Síria. O cenário encontrado foi de completa destruição e ruínas; da rica e imensa cidade, restou apenas uma aglomeração de pessoas na região oeste que lutaram todos os dias para não chegar ao mesmo destino que as outras 400 mil pessoas assassinadas pela Guerra na Síria. Através da organização francesa SOS Cristãos do Oriente, Philippe encontra Myriam e sua família e tem o seu primeiro contato com o precioso diário.

Myriam começou a escrever seu diário quase que junto com o início das manifestações contra o presidente Bashar al-Assad em 2011, aos seis anos de idade. Depois disso, a situação cresceu progressivamente até matar milhares de pessoas e refugiar outras milhões. A guerra já é algo desolador o suficiente, mas quando vista com os olhos de uma criança se torna ainda mais difícil de digerir. Pessoalmente, diria até mesmo impossível. A sensibilidade do repórter em divulgar tais relatos junto com a sua autora é imensurável, sem dúvida se trata de uma obra tão necessária quanto o renomado Diário de Anne Frank.

Foi, também, muito sensível a maneira com que o livro veio a ser publicado aqui no Brasil. Stéphanie Habrich, fundadora do primeiro jornal infanto-juvenil do Brasil – “Joca”, de São Paulo –, publicou uma notícia a respeito do lançamento na França do diário da menina síria. A notícia gerou uma mobilização entre crianças que organizaram diversas atividades com finalidade de disseminar informação, ajudar refugiados necessitados, conscientizar sobre os mais variados temas. Por fim, o jornal recebeu diversas cartas e abaixo assinados para traduzir e trazer o diário para o Brasil, ato que levou a tão esperada publicação pela editora DarkSide Books, em 2018.

Achei importante destacar todo esse processo de chegada do livro ao nosso país, pois não há maior exemplo do impacto dessa história do que tal movimentação. Foi pela mão de crianças que se colocaram no lugar da Myriam. O carinho certamente ultrapassou fronteiras, pois a própria autora do livro passou a nutriu um apreço especial pelo Brasil depois de todo o ocorrido. Pesquisando sobre como estaria Myriam Rawick hoje, encontrei um vídeo dela que foi passado nas escolas que pediram pelo livro, mandando seus agradecimentos e até mesmo arriscando palavras em português.

O diário contém seu primeiro relato no dia 12 de junho de 2011, e o último – dos que são apresentados na edição, já que Myriam diz ter continuado a escrever seu diário mesmo após os ataques em Alepo terem cessado – em março de 2017. Com a tradução de Maria Clara Carneiro, acompanhar o amadurecimento forçado e precoce de uma criança gera uma comoção no leitor. A alegria das feiras nas ruas de Alepo, as comidas típicas de sua nação, a alegria de frequentar a escola se transformando aos poucos em medo, o estranhamento do terror que não faz o menor sentido em seus olhos, o desespero de seus pais para proteger a ela e sua irmã mais nova, as pequenas alegrias em meio a uma rotina caótica... Cada página traz experiências impensáveis a alguém tão jovem.

Ao contrário de Anne Frank, Myriam não deu espaço para devaneios ou longas descrições do que é sentido. É um relato duro que dói ainda mais quando se recorda que foi feito por uma criança, tudo é narrado de uma forma muito crua. Direta. Real demais. Myriam não nos poupa dos detalhes, mas também não os estende excessivamente; sua narrativa é simplesmente pontual, mas sem nunca perder o filtro da inocência da infância.

Nas páginas finais do livro, Yan Boechat traz em suas fotografias uma paisagem de escombros e apenas a sombra de uma cidade que um dia existiu ali. A editora não errou na montagem do livro, cumprindo fielmente com sua fama de produzir verdadeiras obras de arte e quem disse para não julgar um livro pela capa certamente não conhecia a DarkSide. A edição foge um pouco da costumeira capa dura, permitindo um preço mais acessível a uma obra que deve sim ser acessada, mas não decepciona em qualidade e estética.

Um livro a se adquirir que vale a pena desde o seu conteúdo até sua capa, uma experiência valiosa de empatia e sensibilidade. “O Diário de Myriam” é, sem sombra de dúvidas, uma obra que humaniza as vidas transformadas em mera estatística de noticiários e nos intima a refletir sobre os horrores da guerra.


O Diário de Myriam - Site oficial

Adquira o livro na DarkSide Books




domingo, 31 de maio de 2020

Inerte


Mais pra baixo tem um texto que escrevi quando estava prestes a ter mais uma crise de ansiedade. Comecei a faculdade no segundo semestre de 2019, então o primeiro semestre foi um grande hiato que, como qualquer coisa na vida, teve seus lados bons e ruins. Enquanto eu o vivia, porém, os lados ruins eram mais evidentes.

Minhas lembranças do começo do ano passado são bem embaralhadas e solitárias. Não tinha rotina, não via muitas pessoas além da minha irmã, meu cunhado e minha sobrinha (e ainda bem que eles estavam lá comigo), saía de casa basicamente só para ir ao médico, ao mercado e à igreja. Sei que via séries, animes, tentava escrever um pouco, jogava um jogo ou outro, mas me lembro muito forte da sensação de tédio, de me sentir perdida, de desejar com cada pedacinho meu por algo para preencher meus dias.

O ser humano é curioso, no mínimo. Quando estamos atarefados, queremos não estar. Quando não estamos atarefados, queremos estar. Vejo isso constantemente nas pessoas ao meu redor...

Acabou que não estar ocupada me ajudou a me acostumar com os medicamentos. Só quem toma lítio sabe do sono absurdo que aquele comprimido abençoado dá, além dos tremores e da diarreia inconveniente... Mas sempre pensei comigo mesma: "melhor sofrer com efeitos colaterais dos remédios que vão me fazer melhorar do que sofrer com os insuportáveis sintomas das doenças da mente", e isso de fato me ajudou muito a longo prazo.

Mas enquanto isso... Bem, vamos ao texto.





🕒 março de 2019

O tédio é enlouquecedor.

Se você tem ansiedade, você não sabe o que é ficar sem fazer nada. Não sabe o que é relaxar e curtir o tempo livre. Não sabe o que fazer consigo mesmo, com o próprio corpo, com a própria mente.

Então, de tanto que não quer ficar sem fazer nada, você acaba fazendo justamente isso: nada. Você quer levantar e sair caminhar, ou estudar, ou ler algo, ou assistir a alguma série, ou escrever, ou qualquer outra coisa, mas essa sensação horrorosa de incapacidade te domina e você acaba não fazendo nada disso.

Os pensamentos não param ou desaceleram nem mesmo um segundo; até a coisa mais simples toma uma proporção tão gigantesca na sua cabeça que de repente nada vale a pena... Você vai falhar mesmo. Porque é essa a impressão que fica, a de que tudo dá errado. Até quando dá certo no final dá errado. Então, por que tentar de novo apenas para se frustrar?

O pior é quando as doenças vêm em um combo. A ansiedade te imobiliza, a depressão te derruba. Então você só fica inerte. E qualquer outra mínima limitação física sua se torna dez vezes maior até que fique insuportável, mas só ao ponto de servir como uma desculpa a você mesmo para não fazer nada. Cólica, dor de cabeça, dor nas costas, alergias, problemas respiratórios, pressão baixa... Até o mal estar e o tremor nas mãos que os remédios que você toma justamente para depressão e ansiedade entram nessa.

A ansiedade te faz criar preocupações do nada, como se fosse um dom seu. É sábado, não há com o que se desesperar, mas lá está você criando problemas a partir do nada. Você até consegue entender quando age dessa forma em cima de coisas como estudos, trabalho, relacionamentos... Mas quando é só você consigo mesmo, é um inferno. A sua própria companhia te sufoca.

E quanto mais você tenta explicar isso para qualquer pessoa, mais ridículo você se sente. Porque “é tão simples, você consegue, basta acreditar”. Essa conversa motivacional tem o efeito oposto sempre. Sempre!

Na verdade, você nem sabe o que quer ouvir dos outros. Eu, por exemplo, acho que só queria um abraço. Mas quando olho para as pessoas que estão perto de mim, não me sinto digna do abraço de nenhum. Como se os braços de todos que me amam viessem carregados de uma pressão para melhorar. Sinto como se fossem dizer “pronto, agora que eu te abracei, levante dessa cama e reaja”. E lá se vai minha mente presa em círculos novamente...

Desejo melhoras a quem passa por coisas semelhantes. A quem não passa mas conhece alguém que passa, desejo sabedoria e empatia.


Com amor e sinceridade,

Sabrina

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Take me to Heaven - A imagem do cristianismo homofóbico através de músicas pop




Eu quero falar sobre duas músicas aqui. Músicas extremamente desconfortáveis e pesadas para qualquer cristão ouvir, e justamente por isso que as acho tão importantes. Arrisco dizer que são até fundamentais.

É fato que nós, cristãos, falhamos de forma grave quando se trata de dialogar com a cultura “do mundo”, a começar por esse termo que nos afasta ainda mais das pessoas que não acreditam no nosso Deus. Acaso não fazemos parte de um mesmo mundo criado por um mesmo Deus? Vivemos em um condomínio fechado onde ninguém pode entrar ou sair? Quarentenados numa pandemia de preconceitos acreditando que seremos contaminados se formos até as pessoas? Pois a palavra daquele em quem mais devemos nos espelhar, Jesus Cristo, não é “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15)?

IDE por TODO O MUNDO. Ou seja, VÁ. Saia do seu cantinho e VÁ! CORRA O MUNDO TODO. PREGUE O EVANGELHO A TODA CRIATURA.

TODA.

CRIATURA!

Tem sido tão difícil assim entender estas palavras tão, tão claras? Será que nossos olhos já não conseguem mais enxergar tamanha clareza por causa da espessa névoa do preconceito diante de nós? Não deveríamos ser exemplo de amor ao próximo, empatia, acolhimento? Constantemente me pergunto se estamos todos lendo a mesma Bíblia…

Bem, indo ao que me levou a escrever tais coisas: as tais músicas.

A primeira, “Heaven”, Troye Sivan ft. Betty Who. Lançada em outubro de 2016, a letra tem como tema as experiências do cantor e compositor Troye Sivan com a sua sexualidade. Em suas próprias palavras, Heaven se trata do seguinte:

“I came to the point where I wanted to delve into something a bit more specific about my experience as a gay man. I went into the studio and had to revisit some pretty uncomfortable and sometimes painful memories of what it was like to be 15 years old and in the closet. I started writing this song called 'Heaven' about that experience.”

“Cheguei ao ponto em que queria me aprofundar em algo um pouco mais específico sobre minha experiência como um homem gay. Entrei no estúdio e tive que revisitar algumas memórias bastante desconfortáveis e às vezes dolorosas de como era ter 15 anos e estar no armário. Comecei a escrever essa música chamada 'Heaven' sobre essa experiência.”


Já a segunda música… É um pouco mais complicada. Mais ácida. Mais difícil de ouvir. Lançada em setembro de 2013, “Take me to church” de Hozier é pesada da melodia, à letra, ao clipe. Tudo nela pesa. Como Troye Sivan, o cantor e compositor da música também traz em uma entrevista um pouco sobre a própria composição:

“Sexuality, and sexual orientation – regardless of orientation – is just natural. An act of sex is one of the most human things. But an organization like the church, say, through its doctrine, would undermine humanity by successfully teaching shame about sexual orientation – that it is sinful, or that it offends God. The song is about asserting yourself and reclaiming your humanity through an act of love.”

“Sexualidade e orientação sexual – independente da orientação – é apenas natural. Um ato sexual é uma das coisas mais humanas. Mas uma organização como a igreja, digamos, por meio de sua doutrina, minaria a humanidade ensinando com sucesso a vergonha sobre a orientação sexual – que é pecaminosa ou ofende a Deus. A música é sobre se afirmar e recuperar sua humanidade através de um ato de amor.”


Nem preciso dizer o quanto isso será complicado, certo? É, eu só sinto que estou pronta pra falar disso porque Deus me mandou um arrepio do além enquanto eu elaborava mentalmente este texto pela enésima vez. Talvez tal sentimento de medo sobre falar de algo tão importante e presente nos dias de hoje só traga mais um alerta para nós, cristãos. Uma pessoa deveria ter tanto medo assim de falar sobre sexualidade? Isso realmente deveria ser um tabu do tamanho que é? Ainda não ficou evidente que falar sobre isso é tão necessário quanto falar de qualquer outro traço do comportamento humano?

A começar pelo terrível mal-entendido de que a sexualidade se trata apenas de sexo quando, na verdade, se trata do corpo, trata de saber que o seu corpo é algo seu e que ninguém deve tocar sem o seu consentimento, trata de saber como o seu corpo deve funcionar, trata de conhecer os próprios apetites e desejos para, então, pensar em como lidar com eles. Suprimi-los? Assumi-los? Não se pode fazer nenhum dos dois se apenas ignorá-los. Evitar o assunto apenas agrava todo e qualquer possível dano.

O ponto principal é: eu quero mostrar para meus irmãos e irmãs na fé como o restante do mundo tem nos visto, qual é a imagem que nós temos deixado prevalecer, seja com atos de agressão ou de omissão.



Heaven - Céu


O clipe oficial de “Heaven” tem mais de vinte milhões de visualizações, mais de trinta mil comentários onde a massiva maioria deles são de pessoas que se identificaram com o conteúdo da letra e do vídeo. Além disso, temos outras centenas de vídeos com covers de fãs, além de vídeos não oficiais que utilizam desta música como trilha sonora. Ou seja, não é uma coisa aleatória que uma ou outra pessoa acabou encontrando uma parte de si na música... É algo bastante grande, na realidade.

Vou trazendo a letra original junto com a tradução por partes, tecendo meus comentários com base nas minhas experiências, nas experiências dos meus amigos e de todas as pessoas que eu já conheci e pude conversar. Eu resolvi trazer para o texto apenas as duas primeiras estrofes e o refrão, que são os trechos que considero mais importantes para esta reflexão que proponho.

Recomendo ao leitor, porém, que antes de prosseguir com o texto, procure a letra na íntegra e assista ao vídeo de mente e coração abertos. Caso haja maior entendimento do inglês, recomendo imensamente que também leia os comentários, procure saber o que as pessoas sentem ao experienciar todos os elementos desta composição.

The truth runs wild

Like a tear down a cheek

Trying to save face, and daddy heartbreak

I'm lying through my teeth

This voice inside

Has been eating at me

Trying to replace the love that I fake

With what we both need


The truth runs wild

Like kids on concrete

Trying to sedate, my mind in it's cage

And numb what I see

Awake, wide eyed

I'm screaming at me

Trying to keep faith and picture his

face

Staring up at me



A verdade corre solta

Como uma lágrima em uma bochecha

Tentando manter as aparências e salvar o coração partido do papai

Estou mentindo descaradamente

Essa voz interior

Vem me consumindo

Tentando substituir esse amor que eu finjo

Com o que nós dois precisamos


A verdade corre solta

Como crianças no concreto

Tentando sedar minha mente em sua gaiola

E esconder o que eu sinto

Acordado, olhos arregalados

Estou gritando comigo

Tentando manter a fé e imaginar o rosto dele

Me encarando



As primeiras estrofes me colocam a pensar em uma coisa que constantemente passa batido. Não importa o quanto se aponte na cara de uma pessoa e diga “isso é pecado!”, a pessoa não deixará de ser gay. Não existe cura gay. Um fato como esse não consegue se manter escondida para sempre, como lágrimas que em um momento ou outro precisam correr e simplesmente transbordam.

Oprimir as pessoas com a justificativa do pecado, na verdade, as leva a pecar ainda mais. O quanto alguém precisa se afundar em mentiras para manter as aparências e fingir que é heterossexual para seus familiares, amigos? E diante da igreja? Levamos os outros a um efeito cascata de muitos outros pecados como consequência do nossa falta de compreensão com as diferenças (o que já é um pecado nosso, considerando que deveríamos amar ao próximo como a nós mesmos). Nos tornamos motivo para medo, mentira e segredos, ao invés de sermos uma imagem de confiança e amor.

E mais: não é como se a orientação sexual fosse uma escolha da pessoa, até porque ninguém em sã consciência escolheria um caminho repleto de ódio, preconceito, dificuldades familiares, profissionais e sociais, sofrimento de toda natureza; física, verbal, psicológica... Você não quer passar por isso, nem eu, nem qualquer outra pessoa.

É realmente como uma voz lá dentro que te consome, que o tempo todo está ali para te lembrar da sua verdadeira natureza que você tenta esconder. Não adianta se colocar em um relacionamento ideal para todos ao seu redor, não adianta fingir um amor que não existe, porque no final, o que você precisa não é aquilo. Não é algo fácil de admitir para ninguém, e muito menos para si mesmo. São noites mal-dormidas repletas de pensamentos que você não quer pensar, sentimentos que você não quer sentir, mas eles continuam todos lá.

Em uma entrevista sobre a música, Troye Sivan traz alguns dos pensamentos que eu imagino que passavam pela sua cabeça em seus episódios de insônia, de desespero e medo:

“When I first started to realise that I might be gay, I had to ask myself all these questions – these really really terrifying questions. Am I ever going to find someone? Am I ever going to be able to have a family? If there is a God, does that God hate? If there is a heaven, am I ever going to make it to heaven?”

“Quando eu percebi que poderia ser gay, eu tive que me perguntar todas essas perguntas – essas muito muito assustadoras perguntas. Será que algum dia vou encontrar alguém? Será que algum dia vou ser capaz de ter uma família? Se existe um Deus, esse Deus odeia? Se existe um céu, será que eu vou conseguir ir para lá?”

Esse é todo o sofrimento que simplesmente jogamos no lixo quando enfiamos o dedo na cara de qualquer um da comunidade LGBT+ e os condenamos. São pessoas que precisam de acolhimento, amor e compreensão como qualquer outra! E quando os recebemos com repúdio ao invés disso, falhamos completamente na nossa mais importante missão de pregar o evangelho a todos, de trazer boas novas sobre a morte e ressurreição de Jesus, sobre o perdão dos nossos pecados, sobre a chance de termos uma nova vida em Cristo.

Tiramos isso cruelmente da vida dessas pessoas. Depois de muito refletir sobre a existência dos diversos tipos de violência, passei a considerar isso como um ato de violência espiritual. Isaías 64:6 nos diz que “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia”; não temos o menor direito de julgar o pecado alheio, de bancarmos o próprio Deus e sermos os juízes da vida das outras pessoas.

Without losing a piece of me

How do I get to heaven?

Without changing a part of me

How do I get to heaven?

All my time is wasted

Feeling like my heart's mistaken

So if I'm losing a piece of

me

Maybe I don't want heaven


Sem perder uma parte de mim

Como posso chegar no céu?

Sem mudar uma parte de mim

Como posso chegar no céu?

Todo meu tempo desperdiçado

Sentindo que meu coração está enganado

Então, se estou perdendo uma parte de mim

Talvez eu não queira o céu


O refrão me deixa muito, muito triste. Conseguimos jorrar tanto preconceito e ódio que um refrão como esse é considerado libertador por muitas pessoas. Não querer o céu se torna algo bem mais lógico, uma vez que não se pode chegar ao céu sendo quem se é, então de fato é libertador. Não ser condenado ao inferno por ter sentimentos, impulsos e desejos que não se tem o menor controle é libertador. Porque é isso que temos mostrado às pessoas com nossas ações; se você não é heterossexual e cisgênero, você não tem salvação. E, enquanto escrevo isso, me preocupo com o fato de saber que muitos cristãos nem mesmo sabem do que se trata a palavra “cisgênero”! O quão alienados estamos?

Todos somos pecadores, com a única exceção sendo o próprio Deus encarnado, Jesus Cristo. Troye Sivan parece sentir que não merece o céu por ser gay, mas adivinha só? Ninguém merece o céu. Todos estamos manchados pelo pecado, não existe uma pessoa sequer que mereça o céu, mas o grande ponto da Bíblia inteira não é apontar para a graça?! Efésios 2:8 deixa isso bem explícito: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”. Estamos dando alguma chance para essas pessoas terem fé?

Um comentário no clipe desta música acabou por me chamar muita atenção. O usuário com nome de Sadie’s Mischief colocou em palavras tudo o que eu sinto enquanto ouço o refrão de Heaven, todas as coisas que tenho vontade de falar para cada pessoa, como Troye Sivan, que têm o céu negado por cristãos:

“I am a heterosexual Christian and my heart breaks for the LGBT+ community. [...] It’s time to stop tripping our brothers and sisters on the path to heaven. Jesus rebuked the religious leaders for closing the door of heaven in peoples faces. Sadly, this is still happening today and they are the loudest voices. Sweethearts of the LGBT+, please hear my voice instead. His grace covers you just like it does the rest of us. Those that judge you don’t have the right. Only God knows your heart, and you are precious to Him. [...]”

“Eu sou um cristão heterossexual e meu coração se parte pela comunidade LGBT+. [...] É hora de parar de tropeçar em nossos irmãos e irmãs no caminho para o céu. Jesus repreendeu os líderes religiosos por fecharem a porta do céu na cara das pessoas. Infelizmente, isso ainda acontece hoje e são as vozes ainda mais altas. Queridos LGBT+, ouçam minha voz dessa vez. A graça d’Ele cobre você assim como o resto de nós. Aqueles que te julgam não tem esse direito. Somente Deus conhece seu coração, e você é precioso para Ele. [...]”



Take me to church - Leve-me à igreja


Oh, essa música. Essa música... Hozier parece tê-la feito para me machucar e somente isso. Se “Take me to church” não for minimamente chocante para ti, bem, sinto em informar que seu coração já se tornou uma pedra de gelo e vou me colocar em oração por você.

Peço encarecidamente que o leitor procure pelo clipe, procure tomar conhecimento da letra toda antes de eu colocá-la aqui em partes com minhas considerações e interpretações. O vídeo é chocante, é triste, é violento. Tem um alcance mais de cem vezes maior que “Heaven”, totalizando (ao somar os dois clipes oficiais que foram postados) mais de 800 milhões de visualizações, 300 mil comentários e ainda mais incontáveis interpretações dos fãs em suas próprias vozes e arranjos.

O vídeo acompanha uma relação entre dois homens e é ambientado na Rússia, mostrando a severa perseguição que homossexuais sofrem ao terem sua sexualidade descoberta. É lógico que não moramos na Rússia e podemos ter uma sensação de distanciamento ao analisarmos os elementos do clipe, mas quando vejo o título de matérias como “Brasil registrou 1.685 denúncias de violência contra LGBTs em 2018” (do jornal O Globo) e “Brasil registra uma morte por homofobia a cada 23 horas, aponta entidade LGBT” (2019, no site do G1) eu me pergunto: será mesmo que estamos tão distantes assim?

Certamente que nem todo agressor é cristão, mas muitos são. E mesmo que fosse apenas um já seria mais do que o suficiente para nos preocuparmos! O pior é que achamos toda essa violência tão normal que temos líderes nos mais diversos espaços políticos que assumem uma postura de ódio e intolerância, e muitos ainda os aplaudem. Podemos não ser aqueles que agridem fisicamente a alguém LGBT+, ou alguém que os leva à morte diretamente ou que causa um sofrimento tão intenso que leva uma pessoa a tirar a própria vida, mas como população somos sim responsáveis pelo gigantesco atraso nas leis que protegeriam as vítimas de tanta barbárie.

Violência é violência. Ódio é ódio. Não é seletivo, não é “depende”. É horrível, é triste, é errado. Se não nos posicionamos devidamente, estamos sendo omissos e coniventes com isso. Não estou dizendo que devemos todos imediatamente partir para as redes sociais e passar a militar diariamente sobre isso (o que também não acho que seja ruim), até porque podemos falar o que quisermos na internet, mas se na realidade continuarmos com ações preconceituosas não adianta muita coisa. O que eu quero dizer é: seja com palavras ou ações, mostre que Jesus é uma verdade na sua vida, que o evangelho é para todos, que Deus é amor.

Quando deixamos o preconceito nos dominar, o resultado é nada mais que o Deus retratado em “Take me to church”. Enquanto “Heaven” é muito mais introspectiva, a composição de Hozier é descaradamente crítica e irônica desde o primeiro verso até o último. Eu, porém, não irei apresentar todas as estrofes, pois não considero as duas últimas tão fundamentais quanto as outras para essa reflexão, então caso desejar, pode procurar pelo site “Genius” que traz interpretações de músicas verso a verso – mas em inglês, infelizmente.

My lover's got humour

She's the giggle at a funeral

Knows everybody's disapproval

I should've worshipped her sooner

If the Heavens ever did speak

She is the last true mouthpiece

Every Sunday's getting more bleak

A fresh poison each week


Minha amada tem humor

Ela é a risadinha em um funeral

Ela sabe que todos desaprovam

Eu devia tê-la adorado mais cedo

Se os céus alguma vez falaram

Ela é a última profetisa verdadeira

Cada domingo fica mais sombrio

Um veneno novo a cada semana


A letra pode parecer bastante confusa e enigmática a princípio, mas tudo fica pouco a pouco mais claro conforme se reflete sobre ela. Quando ele fala sobre “sua amada”, acredito fortemente que esteja se referindo à sua sexualidade, a julgar pelo teor do clipe e por como todo o restante da letra se encaixa nesse conceito. Como alguém que ri em um funeral, é considerada inapropriada e é um comportamento notoriamente desaprovado por toda uma sociedade.

Acredito, também, que os três versos “Eu devia tê-la adorado mais cedo/Se os céus alguma vez falaram/Ela é a última profetisa verdadeira” tragam algo em comum com “Heaven”. A sua orientação sexual sempre esteve lá coberta por panos, mas e se ele tivesse admitido a si mesmo antes? Quanto sofrimento teria poupado no relacionamento com o seu próprio eu? Deveria tê-la adorado antes, pois aquilo é como verdadeiramente se identifica.

Quando lemos os versos seguintes percebemos que o eu lírico parece frequentar a igreja (seja lá qual for a denominação), o que também abre a interpretação dos versos anteriores para algo como: deveria tê-la adorado antes ao invés de adorar a esse Deus que toda semana me envenena. Pois é isso que a igreja representa para alguém LGBT+, todo domingo é um dia sombrio, todo domingo é um dia de sentir medo, de não se sentir aceito e amado, de se sentir morrendo aos poucos no veneno perigoso do preconceito.

We were born sick

you heard them say it

My church offers no absolutes

She tells me "worship in the bedroom"

The only heaven I'll be sent to

Is when I'm alone with you

I was born sick, but I love it

Command me to be well

Amen. Amen. Amen


Nós nascemos doentes

Você ouviu eles dizerem

Minha igreja não oferece absolvição

Ela me diz "adore no quarto"

O único céu para onde serei enviado

É quando eu estiver a sós com você

Eu nasci doente, mas amo isto

Ordene que eu me cure

Amém, amém e amém


Esse trecho é basicamente sobre o sentimento da completa inexistência da possibilidade do perdão. Acabo me lembrando de “Heaven” novamente ao ler “Eu nasci doente, mas amo isto”, parecendo muito semelhante à conclusão de Troye Sivan ao perceber que talvez ele não queira o céu, porque de fato é muito mais coerente apenas aceitar que a salvação é algo inalcançável quando é isso que você ouve da boca de quem deveria estar pregando o amor de Deus.

E o teor irônico da letra fica mais forte quando Hozier canta “Ordene que eu me cure\Amém, amém e amém”. Para mim é bastante fácil pensar na “cura gay” quando ouço isso. Cura? Oras, homossexualidade não é doença. E, bem, se for mesmo para tratar dessa forma... Então certamente preconceito, ódio e toda aquela listinha desprezível de sentimentos negativos que são dirigidos a qualquer pessoa diferente também são. Estão procurando seus devidos médicos? Como que umas coisas são tratadas como pecado e outras não?

Pois é, sempre parece duro demais quando invertemos um pouco as coisas.

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins

So you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life


Leve-me à igreja

Eu adorarei como um cão no santuário de suas mentiras

Irei lhe contar meus pecados

Assim você poderá afiar sua faca

Ofereça-me essa morte imortal

Bom Deus, deixe-me dar-te minha vida


Bem, chegamos ao refrão. Mais uma vez, o refrão me quebra todinha... É pesado demais. É triste demais. O Deus de amor, o nosso Deus, esse Deus tão bom, esse Deus ao qual eu entrego minha vida todos os dias é quase que retratado como uma figura sádica, maldosa, impiedosa, mentirosa... “Vida eterna! Amor! Bondade! Venha, conte-me seus pecados!” E você vai correndo com o rabinho entre as pernas, os confessa enquanto ouve o som da faca sendo afiada... “Bom menino!”, esse “Deus” diz satisfeito enquanto vê seu cãozinho obedecê-lo, escondendo a faca em suas costas e esperando o momento certo para golpeá-lo.

Ah, então você acha isso um grande absurdo? Quem dera fosse. Conheço pessoalmente várias pessoas que pensam exatamente assim da nossa crença. Não acredita? Pois bem, fico triste demais por informar que entre os 300 mil comentários é bastante difícil encontrar pessoas que não concordem com a letra em algum nível.

“Bom Deus!”, ele diz depois de toda essa imagem que projeta na cabeça do ouvinte, “Deixe-me dar minha vida!”... É quase como se tivesse visto uma cama todinha feita de facas afiadíssimas, em seguida puxasse o dinheiro do bolso e declarasse com entusiasmo “Essa é a cama mais confortável que existe! Deixe-me dormir nela todos os dias!”. É triste e tem sim o objetivo de chocar... Eu só não queria que precisássemos chegar ao ponto de ter uma música com um alcance tão grande fazendo sentido na vida de tantas pessoas. Deus deveria fazer sentido na vida de todos! Mas nós, cristãos, não parecemos fazer sentido com o evangelho ao lidar com a diversidade...

Não basta carregarmos um peso histórico por conta dos terríveis atos da igreja durante a Idade Média, não basta termos na colonização do nosso país mais marcas de atrocidades culturais contra os povos indígenas, temos que ainda hoje sermos símbolo de ameaça, de violências, de preconceito. Quando vamos entender de verdade que devemos agir com amor, não com imposição? Para encerrar, vou repetir o que fiz em “Heaven” e trazer um comentário direto lá do vídeo de “Take me to church”, feito pelo usuário Maru 2004, que resume de maneira ainda mais direta muitos dos meus sentimentos quanto ao assunto:

“I don't understand people who use religion to justify their homophobia. God said ‘Love everyone’. He did not say ‘Love everyone except the gays.’”

“Eu não entendo pessoas que usam a religião para justificar sua homofobia. Deus disse ‘Ame a todos’. Ele não disse ‘Ame a todos menos os gay’.”




Enfim, eu realmente amo ambas as músicas. São melodias e estilos que me agradam muito, mesmo porque eu dificilmente tenho desaprovação por gêneros musicais, e também tenho um certo carinho pelo cantor Troye Sivan desde que uma amiga muito querida me mostrou suas músicas em 2015.

Muito mais do que achar serem meramente músicas agradáveis aos ouvidos, acho que são músicas que pesam no coração. Se você é cristão e ao ler a letra das músicas não se sente triste consigo mesmo ou com seus irmãos, mas ao invés disso joga negatividade nos compositores, você está errado. Eles não têm culpa de pensarem dessa forma uma vez que foi isso que foi apresentado em suas vidas.

Sabe, Jesus disse para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Já ouvi muitos sermões sobre amor ao próximo, mas ouço pouco a respeito da segunda parte... O parâmetro que Deus colocou para amarmos aos outros é o amor que sentimos por nós mesmos. Isso é muito sério e faz muito sentido.

Você é a pessoa com quem deve inevitavelmente conviver 100% do tempo; nos tempos bons, nos tempos ruins; nos tempos de erro e acerto, nos tempos de doença e de saúde, nos tempos de intimidade, mesmo despido no banho ou até quando estiver com dor de estômago trancado no banheiro, você ainda estará lá. Você está com você o tempo todo. A partir do momento que você passa a se aceitar em todos esses momentos (ainda que desaprove e deseje corrigir diversos comportamentos), se torna muito mais fácil olhar para o outro com amor. Até porque você passa muito menos tempo com qualquer outra pessoa do que com você.

Todos temos falhas, mas todos podemos amar. Não tenha medo de admitir que não conhece algo e procure se informar, encontre alguém que possa tirar suas dúvidas. Pense com mais sabedoria em como lidar com as pessoas que pensam diferente de você, porque isso também é amar.

Porém antes do mandamento do amor ao próximo, Jesus traz o primeiro e mais importante de todos os mandamentos; Amar a Deus, acima de todas as coisas. Quando tiramos a menor chance das pessoas conhecerem e amarem a Deus e seu amor incondicional, será que estamos mesmo amando a Deus de todo o nosso coração?


“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mateus 22:37-39)


Angustiante, porém necessário - Resenha: O Diário de Myriam (escrito por Myram Rawick com Philippe Lobjois)

Resenha: O Diário de Myriam, de Myram Rawick com Philippe Lobjois Em 2016, o escritor e repórter de guerra francês Philippe Lobjois chega à ...