domingo, 31 de maio de 2020

Inerte


Mais pra baixo tem um texto que escrevi quando estava prestes a ter mais uma crise de ansiedade. Comecei a faculdade no segundo semestre de 2019, então o primeiro semestre foi um grande hiato que, como qualquer coisa na vida, teve seus lados bons e ruins. Enquanto eu o vivia, porém, os lados ruins eram mais evidentes.

Minhas lembranças do começo do ano passado são bem embaralhadas e solitárias. Não tinha rotina, não via muitas pessoas além da minha irmã, meu cunhado e minha sobrinha (e ainda bem que eles estavam lá comigo), saía de casa basicamente só para ir ao médico, ao mercado e à igreja. Sei que via séries, animes, tentava escrever um pouco, jogava um jogo ou outro, mas me lembro muito forte da sensação de tédio, de me sentir perdida, de desejar com cada pedacinho meu por algo para preencher meus dias.

O ser humano é curioso, no mínimo. Quando estamos atarefados, queremos não estar. Quando não estamos atarefados, queremos estar. Vejo isso constantemente nas pessoas ao meu redor...

Acabou que não estar ocupada me ajudou a me acostumar com os medicamentos. Só quem toma lítio sabe do sono absurdo que aquele comprimido abençoado dá, além dos tremores e da diarreia inconveniente... Mas sempre pensei comigo mesma: "melhor sofrer com efeitos colaterais dos remédios que vão me fazer melhorar do que sofrer com os insuportáveis sintomas das doenças da mente", e isso de fato me ajudou muito a longo prazo.

Mas enquanto isso... Bem, vamos ao texto.





🕒 março de 2019

O tédio é enlouquecedor.

Se você tem ansiedade, você não sabe o que é ficar sem fazer nada. Não sabe o que é relaxar e curtir o tempo livre. Não sabe o que fazer consigo mesmo, com o próprio corpo, com a própria mente.

Então, de tanto que não quer ficar sem fazer nada, você acaba fazendo justamente isso: nada. Você quer levantar e sair caminhar, ou estudar, ou ler algo, ou assistir a alguma série, ou escrever, ou qualquer outra coisa, mas essa sensação horrorosa de incapacidade te domina e você acaba não fazendo nada disso.

Os pensamentos não param ou desaceleram nem mesmo um segundo; até a coisa mais simples toma uma proporção tão gigantesca na sua cabeça que de repente nada vale a pena... Você vai falhar mesmo. Porque é essa a impressão que fica, a de que tudo dá errado. Até quando dá certo no final dá errado. Então, por que tentar de novo apenas para se frustrar?

O pior é quando as doenças vêm em um combo. A ansiedade te imobiliza, a depressão te derruba. Então você só fica inerte. E qualquer outra mínima limitação física sua se torna dez vezes maior até que fique insuportável, mas só ao ponto de servir como uma desculpa a você mesmo para não fazer nada. Cólica, dor de cabeça, dor nas costas, alergias, problemas respiratórios, pressão baixa... Até o mal estar e o tremor nas mãos que os remédios que você toma justamente para depressão e ansiedade entram nessa.

A ansiedade te faz criar preocupações do nada, como se fosse um dom seu. É sábado, não há com o que se desesperar, mas lá está você criando problemas a partir do nada. Você até consegue entender quando age dessa forma em cima de coisas como estudos, trabalho, relacionamentos... Mas quando é só você consigo mesmo, é um inferno. A sua própria companhia te sufoca.

E quanto mais você tenta explicar isso para qualquer pessoa, mais ridículo você se sente. Porque “é tão simples, você consegue, basta acreditar”. Essa conversa motivacional tem o efeito oposto sempre. Sempre!

Na verdade, você nem sabe o que quer ouvir dos outros. Eu, por exemplo, acho que só queria um abraço. Mas quando olho para as pessoas que estão perto de mim, não me sinto digna do abraço de nenhum. Como se os braços de todos que me amam viessem carregados de uma pressão para melhorar. Sinto como se fossem dizer “pronto, agora que eu te abracei, levante dessa cama e reaja”. E lá se vai minha mente presa em círculos novamente...

Desejo melhoras a quem passa por coisas semelhantes. A quem não passa mas conhece alguém que passa, desejo sabedoria e empatia.


Com amor e sinceridade,

Sabrina

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